Enquanto a cheia dos rios do Amazonas ainda afeta mais de 150 mil pessoas em 16 municípios, as prefeituras do estado já começaram a acionar o governo federal em busca de apoio para enfrentar o próximo período de seca, com início em julho.
A preocupação se deve às projeções dos principais órgãos de meteorologia, que apontam para o risco de um super El Niño, com potencial de levar a estiagem a um cenário semelhante aos níveis críticos registrados em 2023 e 2024.
“Temos acompanhado de perto com a Defesa Civil e pelo Comitê Permanente de Mudanças Climáticas do governo estadual, e a nossa atuação é para garantir que os municípios que podem ser prejudicados sejam atendidos”, afirma o presidente da Associação Amazonense de Municípios (AAM).
No mês passado, a entidade enviou um ofício ao Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), onde está a Defesa Civil da União, para apresentar os riscos de isolamento e desabastecimento com a próxima seca e solicitar auxílio. Ainda não houve retorno para a demanda.
“O Ministério tem oferecido suporte durante a cheia dos rios, por meio de transferências baseadas em projetos realizados pelos municípios com apoio da associação”, diz Anderson. Ao todo, os municípios já receberam mais de R$ 10 milhões para ações de redução dos danos provocados pelas enchentes, como a compra de itens de necessidade básica e alimentos.
ELEIÇÃO
A Associação também oficiou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alertando para o fato de que a eleição deste ano será muito impactada pela seca. O pedido da entidade é para que a Corte autorize transferências às prefeituras que, segundo Anderson, são as que mais precisam arcar com as despesas urgentes.
“No interior, muitas vezes, é a prefeitura que precisa lidar com o transporte dos eleitores e, na seca, o custo fica muito maior. Um custo de combustível de embarcação para todo o período, que a gente paga R$ 20 mil, vai a R$ 50 mil por causa das secas extremas”, diz.
Nas estiagens históricas de 2023 e 2024, mais de 800 mil pessoas ficaram prejudicadas no estado. Houve casos de racionamento de energia e de água, e comunidades, até mesmo na zona rural de Manaus, chegaram a ficar sem água potável e alimentos.
PREVISÃO
De acordo com o Centro de Previsão Climática da NOAA, dos Estados Unidos, a probabilidade de formação do El Niño supera os 60% já no trimestre maio-julho, escalando para impressionantes 90% a partir de agosto de 2026. Já o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus afirmou que os oceanos podem registrar temperaturas recordes já neste mês, antes mesmo do El Niño.
O meteorologista Carlos Nobre, referência global em estudos sobre mudanças climáticas, afirma que existe uma probabilidade de 20% de que será um El Niño forte, 20% de ser muito forte, mas também 20% de que seja uma ocorrência de caráter médio.
“Essas são as probabilidades que a ciência está dizendo, hoje, mas nós temos que esperar um pouco mais. Em junho ou julho a gente já poderá ter uma noção bem melhor para dizer se o fenômeno vai ficar no médio, forte ou muito forte.
O professor lembra que as secas de 2023 e 2024 foram influenciados pela última ocorrência do En Niño, por isso é tão importante que a população da Amazônia e os governos fiquem atentos às previsões.
“A adaptação é um enorme desafio. Em 2023 e 2024, eram centenas de milhares de populações da Amazônia prejudicadas. Não tinha mais o rio, havia falta de água potável, dificuldade de obter alimento, prejuízos na economia. Então, é preciso começar a planejar adaptação para toda a população amazônica para novas ocorrências do El Niño”, aconselha.
El Niño e La Niña são fenômenos que ocorrem no Oceano Pacífico e influenciam o clima em várias partes do mundo. O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas, o que pode provocar mais secas na Amazônia e chuvas intensas em outras regiões. Já a La Niña é o oposto, com o resfriamento dessas águas, geralmente associado ao aumento de chuvas no Norte do Brasil e a secas no Sul.
Fogo também é preocupação
Outro problema que vem com a seca, a exemplo do que ocorreu em 2023 e 2024, é o aumento de queimadas na Amazônia. Com a vegetação mais seca, a limpeza de terrenos com o uso do fogo tende a sair do controle, aumentando as ocorrências de grandes queimadas. Em 2024, o Amazonas registrou mais de 25 mil focos de calor, recorde desde o início da medição, em 1998.
Anderson Sousa afirma que essa preocupação também é compartilhada pelas prefeituras. A associação fez um pedido à Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) para que agricultores mantenham a limpeza do solo no período, mas sem o uso do fogo.
“A nossa associação fez projetos para a Sudam, com previsão de que a prefeitura participante receba uma retroescavadeira, triturador de madeira, tratorito, trator de pneu com arado, para que eles possam fazer a correção do solo por meio do calcário, evitando a queimada”, afirma.
Ele explica que os agricultores geralmente fazem a queimada porque o carvão gerado faz com que a terra fique adubada, mas defende que o calcário é uma opção melhor para exercer essa função.
“A Sudam encaminhou nosso pedido, também, para o Ministério da Agricultura, e esperamos ter uma resposta com rapidez para que possamos, antes do período do verão, ter essas providências tomadas”, comenta.




